segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Biografias autorizadas

“ O peixe é pro fundo das redes/ segredo é para quatro paredes”

Estamos vivendo um momento democrático muito bacana em relação a uma nova lei a respeito da publicação de biografias. De um lado, um grupo, que defendo, comandando por expoentes do nosso cancioneiro reivindicando o direito à sua privacidade. Enquanto a pessoa esteja viva que haja necessidade de autorização e que haja também participação nos lucros sobre a obra.
De outro, um grupo que defende o direito de público, editora e biógrafo de fazerem o que bem quiserem: que lucrem sobre a vida do outro, que leiamos o que bem quisermos. E sob esse desejo usam a bandeira da liberdade de expressão e comparam a autorização a um ato censor.

Há alguns anos, fui chamada para  um trabalho. Achei as condições alvitantes.  Como  achei que eu  podia estar com alguma distorção de avaliação, consultei uma amiga que também tinha sido convidada, e, segundo o aliciador, tinha aceitado.  E ela , ao telefone , disse que nunca aceitaria trabalhar em tais condicões. O tempo passou e nos vimos em uma situação que o empregador  poderia se candidatar a um cargo e eu , EM PÚBLICO,  citei o nome da minha amiga ao argumentar contra. Ela se revoltou com a minha citação e falou “ não diga meu santo nome em vão”. Na época, achei exagero, ora, era um fato, ela tinha me dito.
Hoje, vejo que ela tinha toda razão. Felizmente esse ano tive a oportunidade de pedir desculpas. Perdi a convivência com uma pessoa criativa e inteligente por não ter percebido na hora que EU PRECISAVA DE SUA AUTORIZAÇÃO para comentar uma conversa telefônica. Era uma conversa privada. Ela podia ter mudado de ideia; podia ter avaliado melhor as consequências, enfim, eu não podia ter falado em nome dela sem ter combinado antes.
E assim as biografias. O direito à privacidade tem que estar acima do lucro . O fato de ser uma figura pública não me dá o direito de conhecer sua porta fechada. E ainda fechamos a porta ao entrar no banheiro.
Há o fato, há a versão do fato.  Além da possibilidade da real calúnia, há o ridículo provérbio que acreditamos como se tivesse vindo da própria boca de deus “onde há fumaça há fogo”. Não , pode ser vapor  e só confundimos!
Pasmei lendo a opinião em O Globo de Hermínio Bello de Carvalho. O fato dele gostar de biografias autorizadas ou não  é pessoal, não nos dá direito à invasão de privacidade desautorizadamente.  Não é enchendo os tribunais de processos longos que vamos garantir a nossa idoneidade.  Não se trata apenas de proteção à calúnia. O fato de alguém gostar de sair enfiando alfinetes nas pessoas na rua não dá direito à ninguém fazer isso.

Ah! e há o argumento traumático da censura.. epa!   Lei, regras sociais não são censura.  Quando se pede para não jogar lixo no chão não estamos censurando ninguém. É um trato.. Censura é quando eu te impeço de ter sua opinião e te condeno por isso. Quando decido autoritariamente o que podem LER e não o que pode ser COMERCIALIZADO. No caso, o que queremos é que não se PUBLIQUE  ganhando por isso. Posso ter um blog contando a vida do Chico Buarque. Se  ele achar que estou caluniando, vou responder por isso nos tribunais. Mas ele não vai me impedir de ter um blog. Mas não posso cobrar de ninguém a leitura do meu blog. Nem colocar anúncios nele.  Viram a diferença? A liberdade está garantida. 
Quando escrevi a convite da Editora Ática a vida de Michelangelo uma parte do meu texto original foi vetada pela então editoria. Ora,  ela não estava me censurando, era um negócio e tinha seus argumentos, trata-se de uma parceria.  Se eu quiser publicar aqui as partes editadas, eu posso, não é censura. É Parceria!

Por outro lado, ninguém pode se adonar para sempre de uma figura pública, esperando completar os 70 anos de sua morte. Eu  não posso usar nada da Laura Ingalls sem autorização dos donos da marca. Não posso, como não pude, escrever um livro sobre a infância da Carmem Miranda porque a dona da marca não quer, acha que já tem uma, e não quer e ponto, sem ler, sem saber, sem nada.  E também temos que nos proteger dos herdeiros! Um filho adulto não pode simplesmente bloquear a obra do pai porque brigou com ele. Por outro lado, uma figura pública que usa os recursos governamentais para shows, publicações etc também não pode ter essa parte da sua vida escondida.

O tema é palpitante. É essencial. Fala de direito e deveres, fala da coletividade, fala de liberdade. E principalmente mexe com fatos que tomamos como certos e não são.  O que é ser celebridade? Será que o fato das celebridades terem alcançado tal status não está vinculado às aparições em TV, que é uma concessão pública daí acharmos que é nosso dinheiro que as torna célebre e nos vemos com direito à fofoca?

Fico impressionada com o rancor que envolve as discussões a respeito.  Estamos falando de Roberto Carlos, de Chico Buarque, de Caetano Veloso, de Mautner, de Gil! Da fina flor de nossa cultura, de gente que deu a cara a tapa por nós, que nos deu alegrias infinitas.  No mínimo, vamos dar crédito a eles pois eles tem o que perder e nós estamos no nosso conforto do anonimato.  
Meu parecer é: enquanto a figura pública for viva, ou se morta, seu cônjuge e filhos menores tem o direito de autorizar. Depois, é de todos.

E que continuemos a usufruir dessa maravilha democrática!

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