terça-feira, 10 de setembro de 2013

A pedagogia da história


Há um tempo atrás encontrei com um ex-aluno que me disse:- Ah! eu sempre me lembro das suas aulas! Lembro particularmente quando....”
Quando aprendeu perspectiva? Quando dissolveu os pigmentos na água e descobriu as manhas da aquarela? Quando seus grafismos interpretaram as ramas das árvores?
“quando um dia você disse”olhe! Aquelas duas folhinhas estão conversando!”
Infelizmente não é só comigo que isso acontece. Carl Rogers inicia seu livro Tornar-se Pessoa exatamente contando que em geral o que fica nas recordações não é a matéria e sim seu gosto por Milk-shake de chocolate ou algo assim.
Então, como ensinar?
Um dos maiores problemas dos professores é despertar o interesse dos alunos para a sua matéria.  Alguns vão vestidos de general, outros passam filmes, outros imitam o Elvis, tudo na busca de apanhar esse passarinho fugidio que é o interesse dos alunos. Os jovens tem tanta coisa para viver! Tanto para namorar, saber de si, experimentar que uma sala de aula com alguém falando, falando, escrevendo e perguntando pouco tem de atraente. Recentemente a Universidade de Chicago fez uma experiência oferecendo dinheiro(50 a 500 dólares) e um passeio de limusine para os alunos que atingisse suas metas, mesmo assim, não deu certo, e, aqui pra nós, graças a deus!
Ontem, assistindo o início do programa Roda Viva ouvi a fala do jornalista Laurentino Gomes a respeito de seus Best-sellers e de sua posição a respeito da crítica dos historiadores. Para quem não sabe, ele é um jornalista autor de uma otimamente bem sucedida série de livros sobre a História do Brasil.  Adianto que não os li. Imagino que eu me divirta lendo-os assim como me distraio com os livros do Peninha que também foram Best-sellers de História. E acho legal que livros sobre a história de nosso país ganhem notoriedade. Não se trata disso. O que me irritou profundamente e me fez trocar de canal ao ver que nenhum dos entrevistadores rebateu a questão foi o fato dele dizer que “os professores de história o agradeciam por terem como despertar o interesse dos alunos pela História ..... (e)... a história se faz com homens e não só como Marx propôs de movimentos históricos de dominação”.
Só me restou mudar de canal e assistir ao filme da TV Escola , que recomendo a todos os professores de História que  passem  em todos os colégios que lecionem: “Arquitetura da Destruição”.
Como eu não fazia parte da roda-viva, embora sofra as consequências de professores de história que acham que as amantes de João VI , ou mesmo a Monica Levinsky sejam tão importantes para as guerras , para as decisões de se bombardear a Siria quanto a dominação, quanto a economia gerada pela indústria bélica, só me resta escrever sobre minha área de conhecimento  que é a pedagogia.
Todos nós brincamos de cubinhos quando crianças e nem por isso viramos arquitetos. Todos nós ouvimos histórias , contos de fadas, e nem por isso somos criadores da Pixar. Minha geração brincou de cowboy mas não largou a cidade para criar cavalos e vacas, muitos, ao contrário, prefiram a bolsa de valores.  Então, não é o que se faz  na infância e na juventude que vai direcionar com certeza a um conhecimento ou atuação. Como escritora de livros infantis  há 20 anos, vendo meus leitores crescerem, em verdade vos digo, muitos deles continuam leitores sim, mas ainda de livros infantis. Não fizeram a passagem para o livro adulto.  Seu o  máximo de complexidade é  Harry Potter  ou O  Senhor dos Aneis e similares. São suas preferências, assim como romances ou a chamada “literatura de mulherzinha”.  O fato de ser um leitor na infância não implica necessariamente que se torne adulto  leitor.  Mas, é claro que se não for leitor na infância terá muito  mais dificuldade de se tornar um leitor adulto. Sem contar os outros benefícios da leitura precoce, como a fantasia, a imaginação, o vocabulário, o pensamento etc e tal, tudo isso que a gente já sabe.
É bem possível que um aluno que saia da sala de aula de  História onde o professor discorreu sobre as amantes de D.João VI ou seu hábito de comer galinhas apenas saiba isso, pois o resto não fez sentido para ele. O resto era vazio, já que não se falou sobre os movimentos históricos. E ele sai de lá e, no  máximo, vai votar no candidato sem amantes ou vegetariano e vai esquecê-lo e, mais tarde, se queixar dele nem se lembrando que ele só está lá porque levou seu voto.

E se isso acontece é porque as próprias faculdades de História também não estão formando seus professores com a  profundidade devida, é claro. O discurso é bacana e com a pressa do dia a dia o professor vê no fato de ser simpático ao aluno um aliado não só para os resultados escolares como  para acalmar sua própria existência. Sim, a turma vai cair na gargalhada, caro professor, mas não será um bom cidadão se ficar apenas nos hábitos alimentares dos seus governantes e não nos movimentos históricos.

2 comentários:

  1. Gostei muito, acho que me identifico bastante...rss Não sei porquê, mas sempre achei que a sua formação fosse artes visuais (EBA/Ufrj), e não pedagogia...! Obrigada por compartilhar suas cismas de maneira tão bonita!
    beijo

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  2. Apaixonada!
    Como você escreve bem, como penso igual!
    (cheguei aqui pelo post sobre os cabelos brancos, que vi, linkado, no FB da Silmara Franco). Parabéns. Já coloquei vc na minha lista e vou recomendar!

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