terça-feira, 23 de julho de 2013

Depois da gripe


Ah! o prazer de tomar posse das  minúcias da rotina! Adoçar a água dos beija-flores, escovar os cães, estender a roupa lavada na corda... essas tarefas que matinalmente  nos trazem de volta  à realidade desse mundo tão confuso.

Um mês de gripe forte e jeito nas costas me deixou como um receptor de rádio: parada à beira da cama me alimentando de notícias, já  que o paladar foi pro espaço. Muita TV. Muito espanto.

Noto que Michel Teló deixou de ser o símbolo dos desvios estéticos na música popular. Talvez por reconhecerem que o rapaz é trabalhador e isso , aparentemente, seja um valor para a população. Talvez por , finalmente, aceitarem que a canção carro-chefe seja realmente divertida. Talvez por notarem a semelhança  entre o histórico roubo da canção com o histórico roubo dos incensados Bill Gates e Steve Jobs.
Talvez.
Talvez porque haja maiores espantos no setor, como o fato de que o maior arrecadamento de direitos autorais de canção no Japão , há seis anos, seja de um brasileiro. Ele diz em reportagem que é tanta grana que ele  não precisa mais se preocupar com isso pro resto da vida. A canção coqueluche diz em sua letra:
Zoom, zoom, zoom
Zoom, zoom zoom,
Zoom, zoom zoom
Refrão: zum zum zum..

Até aí, tudo bem. Tudo bem mesmo.  Apesar da canção ser de domínio público, já que se trata de um canto de capoeira, o artista deu-lhe uma roupagem própria. E sim, é um cara de sorte. Fui amiga dele ,sei que é um cara ousado, criativo, nascido em berço de ouro, que viveu os anos 70 com todas as vertentes que a década proporcionava, e estava lá no dia quem que Zoom Zoom foi apresentada ao mundo: Planetário da Gávea, em play back, vestido de astronauta, o autor se movimentava para nosso espanto.

Natural. O pseudo sistema de mérito em que vivemos possibilita tais sortes. Contatos, dinheiro, educação do melhor colégio carioca, criatividade e beleza.  O espanto não é esse. Afinal, estamos acostumados a plágios, roubos,  e sortes. O Hino do América,por exemplo de Lamartine Babo é plágio. A canção Negro Gato que Roberto Carlos cantava ....  a canção Feelings , um plágio de uma canção francesa  da década de 50 que   um brasileiro fez colocando uma letra em inglês.. E no caso, nem  domínio público eram. E o demérito não é só brasileiro! Beatles plagiaram,  e o oscarizado mundo de Py?


O espanto é que os japoneses adotaram a canção de um comercial de carros! Sim, zoom zoom foi trilha de um filme americano e  a Mazda  colocou a canção em um comercial *. Os japoneses há 6 anos adoram!

Por outro lado, se enquanto em repouso  recebo tais notícias do pseudo sistema de mérito também  fico sabendo de  méritos reais possibilitados pelo governo através do programa Ciência sem Fronteira, quando um jovem do interior da Bahia , universitário em Sergipe- em universidade particular graças ao programa do Governo Universidade para Todos-, se encontra  na melhor faculdade de Tecnologias do mundo e torcendo para trazer pro Brasil seu aprendizado.
Bacana.

Enquanto isso, na pacata cidade de Itamonte dois jovens chamam o taxi. O taxista mais velho da cidade. Os jovens cortam seu pescoço e pegam seu dinheiro: 7 mil reais. E vão para o Rodeio gastar.  Todos estranham a fartura dos conhecidos rapazes, um deles, filho de um funcionário da prefeitura. No mesmo dia são presos.  Dois rapazes sem passado de altas drogas  ou passagens pela polícia. Sem arma de fogo, para gastar em um rodeio.


Uma mariola pra quem juntar  o que tudo isso tem a ver uma coisa com a outra. 
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* Não é a primeira vez que uma canção publicitária ganha  o gosto público. No interior de Minas, nos anos 50, o grande sucesso das festinhas era o jingle de Melhoral. Assisti em um colégio religioso uma apresentação das crianças sobre o Descobrimento do Brasil com a trilha sonora de um jingle da Coca-cola, e, ainda, a maravilhosa canção  San Francisco foi inicialmente um jingle do festival.  Mas que é esquisito é. 

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Vidas molhadas 4- Regando a flor


A fome era muita. Já chegava na escola com fome. Via os coleguinhas  com a merenda no embornal. Ela não levava. Mas sabia que na hora do recreio a professora ia pedir para algum aluno ir até a padaria comprar um pão com mortadela. Era uma honra ser escolhido! Ela caprichava na caligrafia pra ficar bem bonita e a professora gostar dela. Então, se ela se elas fosse bem boazinha , a professora a escolhia ela e  ela podia voltar da padaria cheirando o pão. Que cheiro bom! O pão quentinho, a mortadela perfumada e gelada e bastante manteiga.Podia até fingir que era ela quem comia aquele pão. Torcia, então, para que houvesse comida em casa. Em geral só tinha arroz, aí a mãe mandava ela ir catar no mato tomate de árvore para comer.  Ela ia com os irmãos.  Se fosse uma irmã bem boazinha, ela comia uns dois ou três frutos antes e os irmãos não contariam para a mãe.

Era bonitinha , sabia disso. Não tinha mais um sorriso bonito porque dentes cariavam e o dentista que aparecia de vez em quando arrancava os dentes que doíam. Mas como era boazinha, o dentista  trouxe um dia a dentadura e ela soube agradecer.

Pai e mãe já não tinha, os irmãos crescidos também se foram para outros lugares. Ficou na casa do tio. O tio matava o boi, tirava o couro, fazia sela, coisas bonitas.  Não sabia escrever mas fazia selas enfeitava, conhecia a coisa bonita. Foi ela quem escreveu com sua letra bonita o cartaz que ficou na porta: “Artezanato de Couro.”Tá lá até hoje. Ainda com Z. E ele soube agradecer. Deu a ela um cinto todo enfeitado. Cabia direitinho na cintura dela. Ele sabia o que era coisa bonita, e ela era boazinha e soube agradecer.

Vendeu o cinto , como era boazinha e sabia agradecer , ajudava aqui e ali. Juntou o dinheiro para passagem e foi pra cidade grande. Que mundo de barulho! Quanta coisa bonita! Não foi difícil arrumar um emprego em um posto de gasolina. Agora tinha comida todo dia. Doce, sanduíche de mortadela à vontade. Bala, sorvete, e sabia fazer conta e o dono do posto viu que ela era bonitinha , pagava pra ela o quarto. E ela soube agradecer.

A mulher dele implicou e ela foi pra outra cidade.  Alugou um quarto em uma pensão e logo ficou amiga da dona da pensão. Ela sabia que se fosse bem boazinha as pessoas gostariam dela. Assim como aquele homem que conheceu na padaria comendo pão com mortadela. Era um senhor distinto. Já sabia que tinha de ser boazinha e aprendera mais uma palavra que anotou com sua letra bonita pra não escrever: discreta.
E como ela era boazinha e sabia agradecer, não precisava mais pagar o quarto da pensão. A dona da pensão agora era sua amiga e trocou seus favores pelo quarto.  Pode juntar dinheiro.

Despediu-se do senhor distinto. Despediu-se da amiga e voltou pra sua cidade com a bolsa cheia: ia começar o seu próprio negócio! Primeiro comprou um pequeno terreno. Os sobrinhos ajudaram a levantar uma casa. Encheu a terra de flores!  Aprendeu a cuidar das flores e das árvores com um curso que o governo deu. Muita gente da cidade foi fazer o curso! Uns aprenderam a mexer com mel . Outros a mexer com flor.

Mas a cidade era pequena demais pra tanta flor. Pegou, então, o ônibus e foi para uma cidade maior. Como era boazinha e sabia agradecer alugou uma loja e foi vender na cidade as flores que plantava na sua casinha.
Mesmo com sua caligrafia bonita, mesmo sabendo fazer conta as contas não fechavam.  Foi até a padaria comer um pão com mortadela. Já estava com 40 anos, mas ainda bonitinha e muito boazinha. Um rapaz alto, forte  gostou dela. Ele tinha 20 anos. Bom demais. Levou ele pra casa e o plantou como uma flor. Podia agora pegar serviços de árvores! Ele cavava os buracos, carregava os sacos de terra. E ela sabia agradecer. E ficaram juntos por muito tempo.

Um dia acordou e o rapaz tinha ido embora. Correu para ver o pote que escondia dentro da terra com o dinheiro. A pá estava ao lado do pote aberto.
Suspirou.
Foi até a farmácia e comprou uma tinta com bastante água oxigenada.  Olhou-se ao espelho.  Os cabelos brancos, a pele enrugada, a  boca sem dentes.  Com a tesoura cortou os cabelos bem curtos.  Ficou loura. Colocou a dentadura e sorriu.
E foi até a padaria comprar um pão com mortadela. Quem sabe se fosse bem boazinha o padeiro não lhe cobrava?


domingo, 14 de julho de 2013

Vidas Molhadas 3- Ela

- Mas Dona Angela, São Jorge não mora lá na lua não, é mentira desse povo,né?
34 anos. Casada. Mãe. Escolaridade: 4ª série.
-E essas pulseiras das meninas que querem fazer sexo? Liga pra mim o número que vou ganhar uma casa. Nunca tive boneca, não senhora. Botava um vestido no travesseiro. Ah! a coisa que mais queria era uma pasta com elástico pra botar meus trabalhinhos do colégio. Minha filha vai ter.
Os olhos arregalam de pavor: tem uma dor abdominal. Os olhos arregalam de pavor: soube que alguém tem câncer.  Grita, exige: danoninho, sabão OMO, roupa nova, estante, televisão, computador da Xuxa. Faz prestação, não entende como é que o dinheiro não deu se a parcela era  de 30 reais. Mora no Brasil, não sabe o que é estado, nem município. O bolo desanda. Mas a receita dizia ¾ de xícara de óleo. E ela contou. Colocou 3 e depois 4. Por que  não consegue fazer bolo se faz sabão tão bem? Queria usar brinco de argola e batom,pintar o cabelo bem pretinho, pintar unha mas a Igreja não deixa. Então, solta os cabelos que vão até abaixo dos joelhos e o marido acha a coisa mais linda. Mas o cordão de ouro ela usa. Fininho, pequeno, com uma florzinha. É seu cordão. Comprou com o primeiro salário que recebeu, aos 13 anos. Trabalhava direto duas semanas. Não tinha carteira assinada não.
Isso é bobice. Não tinha férias não, não, folga só de 15 em 15 dias no domingo. Aí ia pras festas. Aí conheci o meu marido. Casei moça sim. Nunca apanhei não. Trabalhava na roça antes. Meus irmãos são meio ruim da cabeça. Meu pai tá com uma moça agora. Minha mãe não sai da cadeira mais não. Minha irmã quer meu cordão emprestado. Não empresto não. Ela sai com qualquer um. Deixa a filha ver aqueles vídeos que meu irmão tem. Ele é homem. Gêmeo comigo,- diz com orgulho de ser gêmea , de ter algo diferente, especial.   Pode ver,é homem,  mas minha sobrinha só tem 11 anos e vê aquelas bobices todas. Nunca saí daqui  não senhora. Eu só fui andar com 4 anos, não sei não.Ficava no hospital. Não sei o que eu tinha não.  A menina chora. Ela chora de fome. Mas acabei de dar o peito. Mas só 5 minutos. Amamentar leva tempo, pode levar até meia hora. Ah mas isso eu não faço não. Socorro! Minha menina perdeu o fogo! Ficou roxa! Me dá ela aqui. Não precisa chorar, foi só um susto, ela está respirando, fica calma. Pronto, viu? Não quero mais trabalhar não. No supermercado pagam mais. Mas tem que saber fazer conta. Carteira assinada é bobice. Coisa feia esse desenho, cruz credo, um homem com a cara amarela , um chapéu de palha e atadura na cabeça. Que feiura.  Ah, que homem lindo é esse? Elvis? Onde ele tá? Já morreu. Não sei quem é  não.  A novela é boa. Não sei a história não.  Gosto de ver, acho  bonito. Não entendo não, mas é bonito. Que nem o meu cordão.
- O que houve? Porque está chorando? O que houve?

-Uma cigana disse pra eu dar o cordão pra ela senão uma coisa ruim ia acontecer comigo. Então eu dei. 

sábado, 13 de julho de 2013

Vidas Molhadas 2


Quem o vê trabalhando na enxada não dá nada por ele. Pequeno demais. 1,60  de altura, certamente. Pé de moça.  Mas ele carrega o tronco como quem leva uma pena. E você se espanta.
Se chegar mais perto vai ver que ele fala. Está falando.
Se chegar mais perto ainda vai ver que seus olhos verdes são injetados de vermelho e faíscam enquanto ele fala:
“Pois ele queria o quê? Diz que não pode ver TV, que não pode assistir programa, nem futebol pro próprio Pastor ter uma TV escondida no armário? Ah, diabo de gente! Vou comprar a TV e não vou mais à igreja. A mulher quer TV e vai ser bom pra menina ver desenhinho. Vou comprar. Faço prestação.Sou  honesto, o nome é limpo, vão dividir. Comigo é assim , que nem esse mato que arranco, o mal se tira da raiz. E se ela quiser levar a menina já falei que passo cinco tiros na cara. Já fui preso e não presto mesmo, mas ela não leva. E esse tar de conselho tutelar que quer ensinar a gente a criar filho. Parei de beber, respeito a mulher, pra quê? Pra só querer comprar, comprar. Já botei o carro no nome dela. A dona lá reclamou porque chutei a vaca, chuto mesmo, não gosto de mulher me dando ordem. Preparei o trato com tanto carinho pra vaca espalhar tudo? Não quero saber se  é bicho, chuto mesmo, como arranco esse mato. Mal se corta pela raiz. E não é certo mesmo prender passarinho. Se vejo conto. O homi quis me pagar 200 reais pra eu pegar um canário. Num pego. Gasto 100 reais de trato pra canário ficar perto, fubá bom misturado com aquelas bolinhas que fazem o canário cantar bonito.  Mal tem que se cortar pela raiz. Ninguém  me quis. Nasci  nem pai nem mãe, deram pra avó me criar. Agora querem ajuda. Tá certo.É pai, tá doente, fui lá. Não tinha comida. 11 filhos e nenhum pra cuidar! E eu que ninguém me quis vou lá. Não tinha comida. Comprei um frango, a mulher fez comida, limpou a casa, o pai disse que pagava depois, disse deus lhe pague. Chega minha irmã, come da comida, e eu reclamei que ela tinha de cuidar do pai. Ela disse que não cuidava, falou alto,  me chingou, veio em cima de mim, dei-lhe um tapa na cara, o namorado dela chegou junto, eu ia dar um tiro na cara dele, mas meu irmão chegou e disse  que ia dar uma coça nele também. Isso  não tá certo. Tem que cortar o  mal pela raiz, essa merda de carrinho de mão tá com a roda presa, é mato , eu tiro. E vai chover. “

E o céu escurece, a chuva forte vem, trovoes e raios ameaçam. E quem está de longe vê o homem que a gente não dá nada por ele, levando o carrinho de mão cheio de verdura pro abrigo quando um raio cai. O carrinho de mão dá o choque. O homem larga o carrinho. O homem voa! Sobe uns 3 metros. Cai ao chão. Cai sacudido em pranto. 

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Vidas Molhadas 1

Acordei pensando nele. Foi meu  primeiro professor aqui nas terras altas. Agachados na terra,ele me ensinava o nome de cada planta, de cada erva. Dizia a serventia.Eu as colhia, grudava na página ladeando as explicações.  Isso é pra salada, isso é pra dor de barriga, amassa assim e coloca mel. 
Mel, ele colhia mel. Quando uma colmeia nos amendrontava, lá vinha ele todo coberto de roupa feita de saco de linhagem, um véu sobre o chapéu e me explicava as coisas: “uma colmeia é a coisa mais linda, Dona Angela.”  E o litro de ouro de mel e os doces favos  faziam parte do sabor e do gosto das comidas. 
Aparecia pela capineira como os fantasmas do Campo dos Sonhos. Os filhotes latiam assustados, depois corriam para acolhê-lo. E ele não se zangava quando seu embornal era farejado e seu lanche consumido por dois ávidos filhotes. Passou a trazer mais um pão, só para dividir.
Comia sempre a mesma coisa: um litro de chá adoçado, batata frita com uns pedaços de carne e dois pães caseiros no lanche. `A noite, só batata frita. Era doido por batata frita. Nunca tinha ficado doente. Não sabia o que era dor ou febre.Banho, só de rio, gelado e à noite.  
Diziam que tinha muito dinheiro enterrado.
Diziam que estava se preparando para ser pastor.
Diziam...
 Magro, pele esturricada de sol ou frio, já que nunca colocava camisa ou sapatos, olhos verdes escuros de pântano lodoso num rosto bem desenhado apesar de ser um mapa hidrográfico de tantas linhas. 
De vez em quando, me trazia um belo livro sobre pássaros que pegara emprestado da estante do outro patrão. Uma vez, me trouxe o chocalho de uma cascavel que ele matara na vinda.
-Matar?
-  Não vejo problema algum . Posso pegar um boi que criei desde pequeno e matar e comer e apreciar.
Aquilo me assustava.
Ele me contava as histórias sofridas da infância. Paredes caiadas,  buscar a cal , lamparinas de banha, a não ser para recém nascidos, aí era uma bucha cheia de azeite. A mãe benzedeira que curava criança com vento virado com uma xícara virgem mais água de 3 rosas para a criança beber e o livrava de cobreiros com um talo da mamona passado no fogo 3 vezes e dizendo:-o que é que corto?
- cobreiro bravo!

 As surras que levava com vara de marmelo ajoelhado no milho; os pães cozidos na sexta feira, as saias longas das mulheres, e a única coisa que o pai comprava, que não era tirado da terra, era o sal e  conga pra ir pra escola.  Anotei tudo. Anotei suas noites em castigo sem comida, com fome na cama de cordas, sob a aspereza do cobertor tecido e tingido em casa. Anotei a vingança ao abrir a porteira de um vizinho e deixar os bois irem pela estrada e a consequente surra que levou. Suas roupas feitas de saco, a escolha do café da manhã: ou pão com leite ou café com farinha. Não podia repetir, nem  comer os dois. Enquanto isso, o pai, nas horas de folga, esculpia ex-votos e tudo o quanto era figura em cera de abelha. Copiava tudo, fazia flor e qualquer bicho em miniatura. Um artista! Depois, chicote.
Esse jeito herdou do pai. Não havia serviço que não fosse capaz de fazer. Levantava paredes, alinhava pedras com perfeição, criava mosaicos.
Um dia pagou 200 reais por um galo só porque ele “cantava bonito”.
Nos seus 40 anos tinha visto muita coisa mudar, mas ele mesmo, nunca saíra daqui.
E outro dia,  leu o poema de Fernando Pessoa que está na capela, seus olhos se encheram de água e me pediu uma cópia.
E comprou um cachorro, adorava o cachorro. Mas  o cachorro comeu o galo . Pegou a espingarda e deu um tiro no meio da testa do seu companheiro de banho nas águas frias, pois só tomava banho de rio.
Aí quis ir embora. Chorou  muito. Disse ser uma pessoa suja, imprestável.  E foi.  Despareceu na capineira.
Um ano depois o soubemos preso. Tinha passado a roçadeira na irmã.
Após temporada em manicômio, pagando cesta básica para alguma instituição foi solto.
Um ano depois soubemos de sua morte. Atropelado pois pedalava bem  no meio da estrada. 

Acidente ou escolha? 

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Fotografar


Há 8 nos que moro nas montanhas. A  princípio descobri-me daltônica nos tons de verde, eram tantos! E eu não os via assim como não via pássaros, tampouco os ouvia. E os erres interiorioranos me apontavam as folhas e diziam seus nomes. Também não os compreendia. Aos poucos,como quem vê um estereograma pela primeira vez, as formas , as folhas, os nomes, foram surgindo perante meus olhos e ouvidos estarrecidos. Estava feita a ligação.
Diariamente caminho nessas terras altas. Se embaixo, minha casa azul-“ porque é bom viver no azul, amor”- surge entre as folhagens lembrando-me um canto das bandeirantes  “ no alto da montanha há um lindo chalé” . Se estou no alto, ela aparece aconchegada pelas montanhas que a abraçam com um carinho comovente.
Há 8 anos que passo pelas mesmas trilhas e não há um dia sequer que uma novidade não surja!É a folha que caiu, é a flor que nasceu, é buraco de tatu, é o condomínio dos cupins que recebeu buraco de cobra cascavel. E as nuvens entram pela janela da casa azul para namorarem o vapor do cafezinho  recém passado no pano.
Então, fotografo. Talvez para aprisionar um trecho de beleza e aprender com ela a querer mais. Dificilmente os registros serão revistos mais que dez vezes . São tantos!  Olha! Um tucano voando entre as grades de uma gaiola de nuvem! Clico aflita para engaiolar esse momento.  Mas aí, um beija-flor passa raspando pelos meus ouvidos, ah! são dois! E o coração acelera, a respiração em suspenso para eles não fugirem, dedos nervosos tiram a tampa da objetiva.. e, voyeur,  testemunho uma cena íntima, tão rápida que me deixa na dúvida se realmente existiu, mas meu coração sabe do privilégio de estar presente no milagre da criação.
Fotografar torna-se um pouco mais difícil com os olhos embaçados da emoção, enxugo com a ponta da camiseta 5 números acima do meu e continuo nessa caça ao tesouro que nunca me frustra pois moro num caleidoscópio de maravilhas, por todo lado é beleza em movimento.
Tenho preferências: a silhueta, o diminuto e o através.  São eles que me chamam atenção e click! Mais uma foto.  Na amplidão da paisagem se minha pequenez se evidencia, torno-me cúmplice de tudo, seja pedra, aranha , flor, folha rasgada ou passarinho. Entendemo-nos bem, então. Estamos em iguais condições como a formiguinha e a neve, sempre um maior que o outro e assim tudo é igual.

E eles, por sua vez, parecem os biscoitos da Alice com o convite escrito : “fotografe-me”! Obedeço.  Às vezes , minha vista cansada sente que colheu um minuto muito especial de cor e forma. E às vezes ela está certa. Outras, ampliado pela tela do computador,  ó decepção! O passarinho voou! A borboleta fechou as asas! O vento levou, a vista falhou. Mas não zango.Amanhã tem mais.