terça-feira, 19 de novembro de 2013

Sou infeliz, dizem, e a culpa é do governo?

É.. esse julgamento  está mostrando como a infelicidade pessoal é forte. Alguns que se dizem budistas estão comemorando e fazendo piada sobre prisão.. Vou parafrasear Caetano: se vocês são no dia a dia como são em política e budismo, estamos feitos! Entendo  que a luta de classe exista, não é novidade; entendo a raiva que há por não conseguir um aeroporto vazio e caucasiano de preferência "como a cor não pega, mulata, quero seu amor", seu único privilégio....  entendo a raiva que dá por acreditarem em mérito e aí, olham para vocês mesmos e pensam: "bem, se eu acredito em mérito, devo ser um zero a esquerda, já que não sou riquíssimo, e agora ainda me tiraram a possiblidade de crescimento e tenho de dividir o lugar no avião , férias tão merecidas, trabalhei tanto para ter duas semanas de férias na Europa.. tenho de dividir com o povo.. Esse povinho que não quer trabalhar porque estao usufruindo de 70 reais por mes , se fossem limpar minha privada ganhariam muito mais! Ficam tendo filho pra ganhar mais, se tiverem 18 filhos ganham a enormidade de 1300 reais! " Ok, entendo tudo isso, não é novidade, mas não ter compaixão e se dizer budista???? Não ter compaixão e se dizer cristão??? Ah! a sede de vingança por suas frustrações!  Sei que são forças arraigadas na história, mas, pelo menos, se se dizem cristãos, budistas, tentem agir como tais. É para seu próprio bem, vão ser menos amargos e vão conhecer pessoas mais legais,criativas! Podem até pertencer ao time de pessoas já idas como  Niemeyer, Darcy Ribeiro, Jorge Amado, Portinari, Saramago..  Ainda existe esse quilate de conversa e criatividade! " Ah..não.. eles deviam estar errados.. quem deve estar certo é o especialista do  telejornal... Quem tá certo é o Bill Gates... o quê? ele roubou? ora.. mas quem não o faz? E qual o problema de sonegar imposto já que eles não aplicam o dinheiro direito? e o povo tem mais é que morrer no agreste sem médico mesmo... cubanos.. aff  Agora, com licença que eu vou à Missa " 

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Biografias autorizadas

“ O peixe é pro fundo das redes/ segredo é para quatro paredes”

Estamos vivendo um momento democrático muito bacana em relação a uma nova lei a respeito da publicação de biografias. De um lado, um grupo, que defendo, comandando por expoentes do nosso cancioneiro reivindicando o direito à sua privacidade. Enquanto a pessoa esteja viva que haja necessidade de autorização e que haja também participação nos lucros sobre a obra.
De outro, um grupo que defende o direito de público, editora e biógrafo de fazerem o que bem quiserem: que lucrem sobre a vida do outro, que leiamos o que bem quisermos. E sob esse desejo usam a bandeira da liberdade de expressão e comparam a autorização a um ato censor.

Há alguns anos, fui chamada para  um trabalho. Achei as condições alvitantes.  Como  achei que eu  podia estar com alguma distorção de avaliação, consultei uma amiga que também tinha sido convidada, e, segundo o aliciador, tinha aceitado.  E ela , ao telefone , disse que nunca aceitaria trabalhar em tais condicões. O tempo passou e nos vimos em uma situação que o empregador  poderia se candidatar a um cargo e eu , EM PÚBLICO,  citei o nome da minha amiga ao argumentar contra. Ela se revoltou com a minha citação e falou “ não diga meu santo nome em vão”. Na época, achei exagero, ora, era um fato, ela tinha me dito.
Hoje, vejo que ela tinha toda razão. Felizmente esse ano tive a oportunidade de pedir desculpas. Perdi a convivência com uma pessoa criativa e inteligente por não ter percebido na hora que EU PRECISAVA DE SUA AUTORIZAÇÃO para comentar uma conversa telefônica. Era uma conversa privada. Ela podia ter mudado de ideia; podia ter avaliado melhor as consequências, enfim, eu não podia ter falado em nome dela sem ter combinado antes.
E assim as biografias. O direito à privacidade tem que estar acima do lucro . O fato de ser uma figura pública não me dá o direito de conhecer sua porta fechada. E ainda fechamos a porta ao entrar no banheiro.
Há o fato, há a versão do fato.  Além da possibilidade da real calúnia, há o ridículo provérbio que acreditamos como se tivesse vindo da própria boca de deus “onde há fumaça há fogo”. Não , pode ser vapor  e só confundimos!
Pasmei lendo a opinião em O Globo de Hermínio Bello de Carvalho. O fato dele gostar de biografias autorizadas ou não  é pessoal, não nos dá direito à invasão de privacidade desautorizadamente.  Não é enchendo os tribunais de processos longos que vamos garantir a nossa idoneidade.  Não se trata apenas de proteção à calúnia. O fato de alguém gostar de sair enfiando alfinetes nas pessoas na rua não dá direito à ninguém fazer isso.

Ah! e há o argumento traumático da censura.. epa!   Lei, regras sociais não são censura.  Quando se pede para não jogar lixo no chão não estamos censurando ninguém. É um trato.. Censura é quando eu te impeço de ter sua opinião e te condeno por isso. Quando decido autoritariamente o que podem LER e não o que pode ser COMERCIALIZADO. No caso, o que queremos é que não se PUBLIQUE  ganhando por isso. Posso ter um blog contando a vida do Chico Buarque. Se  ele achar que estou caluniando, vou responder por isso nos tribunais. Mas ele não vai me impedir de ter um blog. Mas não posso cobrar de ninguém a leitura do meu blog. Nem colocar anúncios nele.  Viram a diferença? A liberdade está garantida. 
Quando escrevi a convite da Editora Ática a vida de Michelangelo uma parte do meu texto original foi vetada pela então editoria. Ora,  ela não estava me censurando, era um negócio e tinha seus argumentos, trata-se de uma parceria.  Se eu quiser publicar aqui as partes editadas, eu posso, não é censura. É Parceria!

Por outro lado, ninguém pode se adonar para sempre de uma figura pública, esperando completar os 70 anos de sua morte. Eu  não posso usar nada da Laura Ingalls sem autorização dos donos da marca. Não posso, como não pude, escrever um livro sobre a infância da Carmem Miranda porque a dona da marca não quer, acha que já tem uma, e não quer e ponto, sem ler, sem saber, sem nada.  E também temos que nos proteger dos herdeiros! Um filho adulto não pode simplesmente bloquear a obra do pai porque brigou com ele. Por outro lado, uma figura pública que usa os recursos governamentais para shows, publicações etc também não pode ter essa parte da sua vida escondida.

O tema é palpitante. É essencial. Fala de direito e deveres, fala da coletividade, fala de liberdade. E principalmente mexe com fatos que tomamos como certos e não são.  O que é ser celebridade? Será que o fato das celebridades terem alcançado tal status não está vinculado às aparições em TV, que é uma concessão pública daí acharmos que é nosso dinheiro que as torna célebre e nos vemos com direito à fofoca?

Fico impressionada com o rancor que envolve as discussões a respeito.  Estamos falando de Roberto Carlos, de Chico Buarque, de Caetano Veloso, de Mautner, de Gil! Da fina flor de nossa cultura, de gente que deu a cara a tapa por nós, que nos deu alegrias infinitas.  No mínimo, vamos dar crédito a eles pois eles tem o que perder e nós estamos no nosso conforto do anonimato.  
Meu parecer é: enquanto a figura pública for viva, ou se morta, seu cônjuge e filhos menores tem o direito de autorizar. Depois, é de todos.

E que continuemos a usufruir dessa maravilha democrática!

terça-feira, 10 de setembro de 2013

A pedagogia da história


Há um tempo atrás encontrei com um ex-aluno que me disse:- Ah! eu sempre me lembro das suas aulas! Lembro particularmente quando....”
Quando aprendeu perspectiva? Quando dissolveu os pigmentos na água e descobriu as manhas da aquarela? Quando seus grafismos interpretaram as ramas das árvores?
“quando um dia você disse”olhe! Aquelas duas folhinhas estão conversando!”
Infelizmente não é só comigo que isso acontece. Carl Rogers inicia seu livro Tornar-se Pessoa exatamente contando que em geral o que fica nas recordações não é a matéria e sim seu gosto por Milk-shake de chocolate ou algo assim.
Então, como ensinar?
Um dos maiores problemas dos professores é despertar o interesse dos alunos para a sua matéria.  Alguns vão vestidos de general, outros passam filmes, outros imitam o Elvis, tudo na busca de apanhar esse passarinho fugidio que é o interesse dos alunos. Os jovens tem tanta coisa para viver! Tanto para namorar, saber de si, experimentar que uma sala de aula com alguém falando, falando, escrevendo e perguntando pouco tem de atraente. Recentemente a Universidade de Chicago fez uma experiência oferecendo dinheiro(50 a 500 dólares) e um passeio de limusine para os alunos que atingisse suas metas, mesmo assim, não deu certo, e, aqui pra nós, graças a deus!
Ontem, assistindo o início do programa Roda Viva ouvi a fala do jornalista Laurentino Gomes a respeito de seus Best-sellers e de sua posição a respeito da crítica dos historiadores. Para quem não sabe, ele é um jornalista autor de uma otimamente bem sucedida série de livros sobre a História do Brasil.  Adianto que não os li. Imagino que eu me divirta lendo-os assim como me distraio com os livros do Peninha que também foram Best-sellers de História. E acho legal que livros sobre a história de nosso país ganhem notoriedade. Não se trata disso. O que me irritou profundamente e me fez trocar de canal ao ver que nenhum dos entrevistadores rebateu a questão foi o fato dele dizer que “os professores de história o agradeciam por terem como despertar o interesse dos alunos pela História ..... (e)... a história se faz com homens e não só como Marx propôs de movimentos históricos de dominação”.
Só me restou mudar de canal e assistir ao filme da TV Escola , que recomendo a todos os professores de História que  passem  em todos os colégios que lecionem: “Arquitetura da Destruição”.
Como eu não fazia parte da roda-viva, embora sofra as consequências de professores de história que acham que as amantes de João VI , ou mesmo a Monica Levinsky sejam tão importantes para as guerras , para as decisões de se bombardear a Siria quanto a dominação, quanto a economia gerada pela indústria bélica, só me resta escrever sobre minha área de conhecimento  que é a pedagogia.
Todos nós brincamos de cubinhos quando crianças e nem por isso viramos arquitetos. Todos nós ouvimos histórias , contos de fadas, e nem por isso somos criadores da Pixar. Minha geração brincou de cowboy mas não largou a cidade para criar cavalos e vacas, muitos, ao contrário, prefiram a bolsa de valores.  Então, não é o que se faz  na infância e na juventude que vai direcionar com certeza a um conhecimento ou atuação. Como escritora de livros infantis  há 20 anos, vendo meus leitores crescerem, em verdade vos digo, muitos deles continuam leitores sim, mas ainda de livros infantis. Não fizeram a passagem para o livro adulto.  Seu o  máximo de complexidade é  Harry Potter  ou O  Senhor dos Aneis e similares. São suas preferências, assim como romances ou a chamada “literatura de mulherzinha”.  O fato de ser um leitor na infância não implica necessariamente que se torne adulto  leitor.  Mas, é claro que se não for leitor na infância terá muito  mais dificuldade de se tornar um leitor adulto. Sem contar os outros benefícios da leitura precoce, como a fantasia, a imaginação, o vocabulário, o pensamento etc e tal, tudo isso que a gente já sabe.
É bem possível que um aluno que saia da sala de aula de  História onde o professor discorreu sobre as amantes de D.João VI ou seu hábito de comer galinhas apenas saiba isso, pois o resto não fez sentido para ele. O resto era vazio, já que não se falou sobre os movimentos históricos. E ele sai de lá e, no  máximo, vai votar no candidato sem amantes ou vegetariano e vai esquecê-lo e, mais tarde, se queixar dele nem se lembrando que ele só está lá porque levou seu voto.

E se isso acontece é porque as próprias faculdades de História também não estão formando seus professores com a  profundidade devida, é claro. O discurso é bacana e com a pressa do dia a dia o professor vê no fato de ser simpático ao aluno um aliado não só para os resultados escolares como  para acalmar sua própria existência. Sim, a turma vai cair na gargalhada, caro professor, mas não será um bom cidadão se ficar apenas nos hábitos alimentares dos seus governantes e não nos movimentos históricos.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Antigamente era moderno

Antigamente, a vida era muito moderna. O Lixo, por exemplo, era reciclado, apesar dessa palavra não existir. Jornais forravam a lixeira da cozinha que só recebiam lixo orgânico. Vidros, potes, barbantes, papeis de embrulho, tudo era guardado. Exame de fezes? Fervia-se bem um vidro de remédio ou um pote de creme, etiquetava e laboratório. Batata frita? Secava no papel de pão.  Papeis de presente eram guardados para servirem para outros presentes.  Éramos modernos.
E ecológicos, embora essa palavra não existisse. Relógios e brinquedos não eram a pilha, eram de dar corda. Poucos aparelhos elétricos. Poucas lâmpadas acesas. Um único aparelho de Tv para toda a família. Em vez de jogos eletrônicos, cartas, dama, ludo, xadrez.
E saudáveis, apesar de não frequentarmos academia, andávamos (quem sabia e tinha) de bicicleta, andávamos, pegávamos bonde, comíamos pouco e em casa, nada de junk food, essa palavra não existia.
Não tenho saudades disso, mas tenho sinto falta de três coisas. O mar limpo da praia de Copacabana. Suas ressacas espetaculares. Ah! o tempo que se tinha para ver a ressaca, ver o nascer da lua!  Passear pelas macumbas do dia primeiro do ano, sem fogos de artifício.  Sinto falta do tempo, havia tempo. Hoje, vivemos no tempo da TV, no tempo do computador, não nosso tempo, no nosso ritmo.  O tempo era nosso.
Pode parecer estranho, mas não tive nenhuma frustração em termos de ganhar coisas na infância. Claro, havia um número menor de ofertas. Claro que eu adoraria ter uma casinha de metal igual a da Claudia Moritz, ou uma Chiquita bacana como as da Regina. Mas eu não precisava delas! A gente brincava juntas. Se minhas amigas tinham, eu não precisava ter. E se a boneca de papel rasgasse, minha irmã Licia desenhava outra pra mim.
Tempo... tempo.





Impermanência

Quando no mar, me encantavam as conchas. Desde pequena ao colocar um grande búzio no ouvido e, espantada, ver que lá cabia o mar do mundo. Diligente, continuei  catando minuciosamente conchas pela vida. Observando suas formas, cores, classificando-as quanto à beleza. Se porventura apresentassem orifícios causados por um antigo habitante, viravam colar.
Das conchas, estendi-me às pedras. A primeira, que ainda tenho, foi colhida na Argentina. Um seixo escuro, palavra que aprendi  então, com uma incrível faixa branca ao seu redor, como  uma fita de presente, estampada com natural arte rupestre. A partir daí não parei mais.  Uma pedra linda de lago passou a morar ao lado da estrela do mar.
Então, eu era jovem. O mar e eu éramos parecidos. Sempre lá, sempre em diferentes tumultos. E pedras e conchas são eternidades.
Hoje, nas montanhas da vista, me encantam os efêmeros. Diariamente um espetáculo exclusivo! Ah! não há Cirque du Soleil que me deslumbre mais do que o malabarismo do beija-flor! E aí, percebo que os tomates nascem, e me emociono de verdade. E me encanto com o nascer das flores, lamento a morte das violetas, mas sei que a vida é assim.  O tempo delas é curto como o meu.
Se na juventude a ilusão do pra sempre se confirmava na beleza das pedras e das conchas, e meu coração era instável como o mar, hoje, na maturidade, me identifico com o aqui e agora. Com o voo de um bando de garças, com a corrida dos cães atrás dos bezerros. E me sinto irmã das montanhas fixas e verdes, que a erosão lenta modifica em grandes tempos, assim como eu ao espelho.
Quem nunca ouviu o mar dentro de uma concha perdeu grandes possibilidades da imaginação.
Quem nunca se emocionou com a joia preciosa de um beija-flor sabe pouco da beleza.

E os dias passam. Haja filosofia!

sábado, 17 de agosto de 2013

Sou do tempo...

Eu sou do tempo antes da TV. E quando veio em preto e branco, tinha de esquentar. E se colocava Bombril na antena pra pegar.
Sou do tempo em que a novela em São Paulo era mais adiantada que no Rio. E no Rio era mais adiantada que em BH. Os parentes perguntavam  o que ia acontecer.
Sou do tempo que o primeiro controle remoto era com fio.
Sou do tempo em que não existia shampu. Quando ele veio era de ovo.
Sou do tempo em que não existia condicionador. Quando veio se chamava Creme Rinse e era cor de rosa. Xampu amarelo, creme-rosa.
Sou do tempo em que pasta de dentes vinha em tubos de metal. Phillips.
Sou do tempo em que não havia sinal de trânsito na Barata Ribeiro esquina da República do Peru.
Sou do tempo em que a tampinha da coca-cola era de metal, precisava de abridor, e por dentro tinha cortiça. O frasco era de vidro, se chamava casco e tinha de ser devolvido.
Sou do tempo em que carne se moía em casa. Em que se vendia galinhas vivas.
Sou do tempo em que a porta da geladeira dava choque.
Sou do tempo em que o freezer da geladeira era tão pequeno que só cabia um porta-gelos e um “tijolo” Kibon.
Sou do tempo em que a lavadeira vinha em casa pegar a roupa pra lavar e passar e se fazia “rol de roupa”.
Sou do tempo em que não havia butiques. Nem  lojas de roupas. Havia algumas “Casas” de moda . Roupa era feita em casa.
Sou do tempo em que as lojas de tecido tinham um estilista desenhando modelos para as freguesas, gratuitamente.
Sou do tempo em que todo mundo era magro.
Sou do tempo em que o guardanapo era de pano e que havia porta-guardanapo , um envelope de pano com monograma, individual.
Sou do tempo em que absorvente era Modess e tinha uma cinta, uma liga, sei lá pra se usar.
Sou do tempo das anáguas, combinações e ligas para meias.
Sou do tempo da “saída de praia”. Do tempo em que sandália hawaiana se chamava sandália japonesa.
Sou do tempo em que poucas pessoas tinham telefone.
Sou do tempo do plano de expansão.
Sou do tempo do cruzeiro. Do Cruzado. Do cruzeiro novo. Do cruzado novo.Do cruzeiro de novo. Da esquizofrenia.
Sou do tempo sem plano de saúde. Médico vinha em casa.
Sou do tempo do leque. Do lenço com monograma obrigatório nas bolsas.
Sou do tempo em que corretivo se chamava erase. E máscara se chamava rímel. E do delineador plástico.
Aí, estou  aguardando ser chamada pro exame de densitometria óssea pra saber se continuo com osteopenia ou se já passei pra osteoporose, vendo a Fátima Bernardes na TV falar sobre Parto Humanizado e uma senhora, mais velha que eu, me mostra a foto do neto que já é uma patente do exército e  me manda pintar os cabelos para eu parecer mais jovem.
Anh?



terça-feira, 23 de julho de 2013

Depois da gripe


Ah! o prazer de tomar posse das  minúcias da rotina! Adoçar a água dos beija-flores, escovar os cães, estender a roupa lavada na corda... essas tarefas que matinalmente  nos trazem de volta  à realidade desse mundo tão confuso.

Um mês de gripe forte e jeito nas costas me deixou como um receptor de rádio: parada à beira da cama me alimentando de notícias, já  que o paladar foi pro espaço. Muita TV. Muito espanto.

Noto que Michel Teló deixou de ser o símbolo dos desvios estéticos na música popular. Talvez por reconhecerem que o rapaz é trabalhador e isso , aparentemente, seja um valor para a população. Talvez por , finalmente, aceitarem que a canção carro-chefe seja realmente divertida. Talvez por notarem a semelhança  entre o histórico roubo da canção com o histórico roubo dos incensados Bill Gates e Steve Jobs.
Talvez.
Talvez porque haja maiores espantos no setor, como o fato de que o maior arrecadamento de direitos autorais de canção no Japão , há seis anos, seja de um brasileiro. Ele diz em reportagem que é tanta grana que ele  não precisa mais se preocupar com isso pro resto da vida. A canção coqueluche diz em sua letra:
Zoom, zoom, zoom
Zoom, zoom zoom,
Zoom, zoom zoom
Refrão: zum zum zum..

Até aí, tudo bem. Tudo bem mesmo.  Apesar da canção ser de domínio público, já que se trata de um canto de capoeira, o artista deu-lhe uma roupagem própria. E sim, é um cara de sorte. Fui amiga dele ,sei que é um cara ousado, criativo, nascido em berço de ouro, que viveu os anos 70 com todas as vertentes que a década proporcionava, e estava lá no dia quem que Zoom Zoom foi apresentada ao mundo: Planetário da Gávea, em play back, vestido de astronauta, o autor se movimentava para nosso espanto.

Natural. O pseudo sistema de mérito em que vivemos possibilita tais sortes. Contatos, dinheiro, educação do melhor colégio carioca, criatividade e beleza.  O espanto não é esse. Afinal, estamos acostumados a plágios, roubos,  e sortes. O Hino do América,por exemplo de Lamartine Babo é plágio. A canção Negro Gato que Roberto Carlos cantava ....  a canção Feelings , um plágio de uma canção francesa  da década de 50 que   um brasileiro fez colocando uma letra em inglês.. E no caso, nem  domínio público eram. E o demérito não é só brasileiro! Beatles plagiaram,  e o oscarizado mundo de Py?


O espanto é que os japoneses adotaram a canção de um comercial de carros! Sim, zoom zoom foi trilha de um filme americano e  a Mazda  colocou a canção em um comercial *. Os japoneses há 6 anos adoram!

Por outro lado, se enquanto em repouso  recebo tais notícias do pseudo sistema de mérito também  fico sabendo de  méritos reais possibilitados pelo governo através do programa Ciência sem Fronteira, quando um jovem do interior da Bahia , universitário em Sergipe- em universidade particular graças ao programa do Governo Universidade para Todos-, se encontra  na melhor faculdade de Tecnologias do mundo e torcendo para trazer pro Brasil seu aprendizado.
Bacana.

Enquanto isso, na pacata cidade de Itamonte dois jovens chamam o taxi. O taxista mais velho da cidade. Os jovens cortam seu pescoço e pegam seu dinheiro: 7 mil reais. E vão para o Rodeio gastar.  Todos estranham a fartura dos conhecidos rapazes, um deles, filho de um funcionário da prefeitura. No mesmo dia são presos.  Dois rapazes sem passado de altas drogas  ou passagens pela polícia. Sem arma de fogo, para gastar em um rodeio.


Uma mariola pra quem juntar  o que tudo isso tem a ver uma coisa com a outra. 
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* Não é a primeira vez que uma canção publicitária ganha  o gosto público. No interior de Minas, nos anos 50, o grande sucesso das festinhas era o jingle de Melhoral. Assisti em um colégio religioso uma apresentação das crianças sobre o Descobrimento do Brasil com a trilha sonora de um jingle da Coca-cola, e, ainda, a maravilhosa canção  San Francisco foi inicialmente um jingle do festival.  Mas que é esquisito é. 

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Vidas molhadas 4- Regando a flor


A fome era muita. Já chegava na escola com fome. Via os coleguinhas  com a merenda no embornal. Ela não levava. Mas sabia que na hora do recreio a professora ia pedir para algum aluno ir até a padaria comprar um pão com mortadela. Era uma honra ser escolhido! Ela caprichava na caligrafia pra ficar bem bonita e a professora gostar dela. Então, se ela se elas fosse bem boazinha , a professora a escolhia ela e  ela podia voltar da padaria cheirando o pão. Que cheiro bom! O pão quentinho, a mortadela perfumada e gelada e bastante manteiga.Podia até fingir que era ela quem comia aquele pão. Torcia, então, para que houvesse comida em casa. Em geral só tinha arroz, aí a mãe mandava ela ir catar no mato tomate de árvore para comer.  Ela ia com os irmãos.  Se fosse uma irmã bem boazinha, ela comia uns dois ou três frutos antes e os irmãos não contariam para a mãe.

Era bonitinha , sabia disso. Não tinha mais um sorriso bonito porque dentes cariavam e o dentista que aparecia de vez em quando arrancava os dentes que doíam. Mas como era boazinha, o dentista  trouxe um dia a dentadura e ela soube agradecer.

Pai e mãe já não tinha, os irmãos crescidos também se foram para outros lugares. Ficou na casa do tio. O tio matava o boi, tirava o couro, fazia sela, coisas bonitas.  Não sabia escrever mas fazia selas enfeitava, conhecia a coisa bonita. Foi ela quem escreveu com sua letra bonita o cartaz que ficou na porta: “Artezanato de Couro.”Tá lá até hoje. Ainda com Z. E ele soube agradecer. Deu a ela um cinto todo enfeitado. Cabia direitinho na cintura dela. Ele sabia o que era coisa bonita, e ela era boazinha e soube agradecer.

Vendeu o cinto , como era boazinha e sabia agradecer , ajudava aqui e ali. Juntou o dinheiro para passagem e foi pra cidade grande. Que mundo de barulho! Quanta coisa bonita! Não foi difícil arrumar um emprego em um posto de gasolina. Agora tinha comida todo dia. Doce, sanduíche de mortadela à vontade. Bala, sorvete, e sabia fazer conta e o dono do posto viu que ela era bonitinha , pagava pra ela o quarto. E ela soube agradecer.

A mulher dele implicou e ela foi pra outra cidade.  Alugou um quarto em uma pensão e logo ficou amiga da dona da pensão. Ela sabia que se fosse bem boazinha as pessoas gostariam dela. Assim como aquele homem que conheceu na padaria comendo pão com mortadela. Era um senhor distinto. Já sabia que tinha de ser boazinha e aprendera mais uma palavra que anotou com sua letra bonita pra não escrever: discreta.
E como ela era boazinha e sabia agradecer, não precisava mais pagar o quarto da pensão. A dona da pensão agora era sua amiga e trocou seus favores pelo quarto.  Pode juntar dinheiro.

Despediu-se do senhor distinto. Despediu-se da amiga e voltou pra sua cidade com a bolsa cheia: ia começar o seu próprio negócio! Primeiro comprou um pequeno terreno. Os sobrinhos ajudaram a levantar uma casa. Encheu a terra de flores!  Aprendeu a cuidar das flores e das árvores com um curso que o governo deu. Muita gente da cidade foi fazer o curso! Uns aprenderam a mexer com mel . Outros a mexer com flor.

Mas a cidade era pequena demais pra tanta flor. Pegou, então, o ônibus e foi para uma cidade maior. Como era boazinha e sabia agradecer alugou uma loja e foi vender na cidade as flores que plantava na sua casinha.
Mesmo com sua caligrafia bonita, mesmo sabendo fazer conta as contas não fechavam.  Foi até a padaria comer um pão com mortadela. Já estava com 40 anos, mas ainda bonitinha e muito boazinha. Um rapaz alto, forte  gostou dela. Ele tinha 20 anos. Bom demais. Levou ele pra casa e o plantou como uma flor. Podia agora pegar serviços de árvores! Ele cavava os buracos, carregava os sacos de terra. E ela sabia agradecer. E ficaram juntos por muito tempo.

Um dia acordou e o rapaz tinha ido embora. Correu para ver o pote que escondia dentro da terra com o dinheiro. A pá estava ao lado do pote aberto.
Suspirou.
Foi até a farmácia e comprou uma tinta com bastante água oxigenada.  Olhou-se ao espelho.  Os cabelos brancos, a pele enrugada, a  boca sem dentes.  Com a tesoura cortou os cabelos bem curtos.  Ficou loura. Colocou a dentadura e sorriu.
E foi até a padaria comprar um pão com mortadela. Quem sabe se fosse bem boazinha o padeiro não lhe cobrava?


domingo, 14 de julho de 2013

Vidas Molhadas 3- Ela

- Mas Dona Angela, São Jorge não mora lá na lua não, é mentira desse povo,né?
34 anos. Casada. Mãe. Escolaridade: 4ª série.
-E essas pulseiras das meninas que querem fazer sexo? Liga pra mim o número que vou ganhar uma casa. Nunca tive boneca, não senhora. Botava um vestido no travesseiro. Ah! a coisa que mais queria era uma pasta com elástico pra botar meus trabalhinhos do colégio. Minha filha vai ter.
Os olhos arregalam de pavor: tem uma dor abdominal. Os olhos arregalam de pavor: soube que alguém tem câncer.  Grita, exige: danoninho, sabão OMO, roupa nova, estante, televisão, computador da Xuxa. Faz prestação, não entende como é que o dinheiro não deu se a parcela era  de 30 reais. Mora no Brasil, não sabe o que é estado, nem município. O bolo desanda. Mas a receita dizia ¾ de xícara de óleo. E ela contou. Colocou 3 e depois 4. Por que  não consegue fazer bolo se faz sabão tão bem? Queria usar brinco de argola e batom,pintar o cabelo bem pretinho, pintar unha mas a Igreja não deixa. Então, solta os cabelos que vão até abaixo dos joelhos e o marido acha a coisa mais linda. Mas o cordão de ouro ela usa. Fininho, pequeno, com uma florzinha. É seu cordão. Comprou com o primeiro salário que recebeu, aos 13 anos. Trabalhava direto duas semanas. Não tinha carteira assinada não.
Isso é bobice. Não tinha férias não, não, folga só de 15 em 15 dias no domingo. Aí ia pras festas. Aí conheci o meu marido. Casei moça sim. Nunca apanhei não. Trabalhava na roça antes. Meus irmãos são meio ruim da cabeça. Meu pai tá com uma moça agora. Minha mãe não sai da cadeira mais não. Minha irmã quer meu cordão emprestado. Não empresto não. Ela sai com qualquer um. Deixa a filha ver aqueles vídeos que meu irmão tem. Ele é homem. Gêmeo comigo,- diz com orgulho de ser gêmea , de ter algo diferente, especial.   Pode ver,é homem,  mas minha sobrinha só tem 11 anos e vê aquelas bobices todas. Nunca saí daqui  não senhora. Eu só fui andar com 4 anos, não sei não.Ficava no hospital. Não sei o que eu tinha não.  A menina chora. Ela chora de fome. Mas acabei de dar o peito. Mas só 5 minutos. Amamentar leva tempo, pode levar até meia hora. Ah mas isso eu não faço não. Socorro! Minha menina perdeu o fogo! Ficou roxa! Me dá ela aqui. Não precisa chorar, foi só um susto, ela está respirando, fica calma. Pronto, viu? Não quero mais trabalhar não. No supermercado pagam mais. Mas tem que saber fazer conta. Carteira assinada é bobice. Coisa feia esse desenho, cruz credo, um homem com a cara amarela , um chapéu de palha e atadura na cabeça. Que feiura.  Ah, que homem lindo é esse? Elvis? Onde ele tá? Já morreu. Não sei quem é  não.  A novela é boa. Não sei a história não.  Gosto de ver, acho  bonito. Não entendo não, mas é bonito. Que nem o meu cordão.
- O que houve? Porque está chorando? O que houve?

-Uma cigana disse pra eu dar o cordão pra ela senão uma coisa ruim ia acontecer comigo. Então eu dei. 

sábado, 13 de julho de 2013

Vidas Molhadas 2


Quem o vê trabalhando na enxada não dá nada por ele. Pequeno demais. 1,60  de altura, certamente. Pé de moça.  Mas ele carrega o tronco como quem leva uma pena. E você se espanta.
Se chegar mais perto vai ver que ele fala. Está falando.
Se chegar mais perto ainda vai ver que seus olhos verdes são injetados de vermelho e faíscam enquanto ele fala:
“Pois ele queria o quê? Diz que não pode ver TV, que não pode assistir programa, nem futebol pro próprio Pastor ter uma TV escondida no armário? Ah, diabo de gente! Vou comprar a TV e não vou mais à igreja. A mulher quer TV e vai ser bom pra menina ver desenhinho. Vou comprar. Faço prestação.Sou  honesto, o nome é limpo, vão dividir. Comigo é assim , que nem esse mato que arranco, o mal se tira da raiz. E se ela quiser levar a menina já falei que passo cinco tiros na cara. Já fui preso e não presto mesmo, mas ela não leva. E esse tar de conselho tutelar que quer ensinar a gente a criar filho. Parei de beber, respeito a mulher, pra quê? Pra só querer comprar, comprar. Já botei o carro no nome dela. A dona lá reclamou porque chutei a vaca, chuto mesmo, não gosto de mulher me dando ordem. Preparei o trato com tanto carinho pra vaca espalhar tudo? Não quero saber se  é bicho, chuto mesmo, como arranco esse mato. Mal se corta pela raiz. E não é certo mesmo prender passarinho. Se vejo conto. O homi quis me pagar 200 reais pra eu pegar um canário. Num pego. Gasto 100 reais de trato pra canário ficar perto, fubá bom misturado com aquelas bolinhas que fazem o canário cantar bonito.  Mal tem que se cortar pela raiz. Ninguém  me quis. Nasci  nem pai nem mãe, deram pra avó me criar. Agora querem ajuda. Tá certo.É pai, tá doente, fui lá. Não tinha comida. 11 filhos e nenhum pra cuidar! E eu que ninguém me quis vou lá. Não tinha comida. Comprei um frango, a mulher fez comida, limpou a casa, o pai disse que pagava depois, disse deus lhe pague. Chega minha irmã, come da comida, e eu reclamei que ela tinha de cuidar do pai. Ela disse que não cuidava, falou alto,  me chingou, veio em cima de mim, dei-lhe um tapa na cara, o namorado dela chegou junto, eu ia dar um tiro na cara dele, mas meu irmão chegou e disse  que ia dar uma coça nele também. Isso  não tá certo. Tem que cortar o  mal pela raiz, essa merda de carrinho de mão tá com a roda presa, é mato , eu tiro. E vai chover. “

E o céu escurece, a chuva forte vem, trovoes e raios ameaçam. E quem está de longe vê o homem que a gente não dá nada por ele, levando o carrinho de mão cheio de verdura pro abrigo quando um raio cai. O carrinho de mão dá o choque. O homem larga o carrinho. O homem voa! Sobe uns 3 metros. Cai ao chão. Cai sacudido em pranto. 

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Vidas Molhadas 1

Acordei pensando nele. Foi meu  primeiro professor aqui nas terras altas. Agachados na terra,ele me ensinava o nome de cada planta, de cada erva. Dizia a serventia.Eu as colhia, grudava na página ladeando as explicações.  Isso é pra salada, isso é pra dor de barriga, amassa assim e coloca mel. 
Mel, ele colhia mel. Quando uma colmeia nos amendrontava, lá vinha ele todo coberto de roupa feita de saco de linhagem, um véu sobre o chapéu e me explicava as coisas: “uma colmeia é a coisa mais linda, Dona Angela.”  E o litro de ouro de mel e os doces favos  faziam parte do sabor e do gosto das comidas. 
Aparecia pela capineira como os fantasmas do Campo dos Sonhos. Os filhotes latiam assustados, depois corriam para acolhê-lo. E ele não se zangava quando seu embornal era farejado e seu lanche consumido por dois ávidos filhotes. Passou a trazer mais um pão, só para dividir.
Comia sempre a mesma coisa: um litro de chá adoçado, batata frita com uns pedaços de carne e dois pães caseiros no lanche. `A noite, só batata frita. Era doido por batata frita. Nunca tinha ficado doente. Não sabia o que era dor ou febre.Banho, só de rio, gelado e à noite.  
Diziam que tinha muito dinheiro enterrado.
Diziam que estava se preparando para ser pastor.
Diziam...
 Magro, pele esturricada de sol ou frio, já que nunca colocava camisa ou sapatos, olhos verdes escuros de pântano lodoso num rosto bem desenhado apesar de ser um mapa hidrográfico de tantas linhas. 
De vez em quando, me trazia um belo livro sobre pássaros que pegara emprestado da estante do outro patrão. Uma vez, me trouxe o chocalho de uma cascavel que ele matara na vinda.
-Matar?
-  Não vejo problema algum . Posso pegar um boi que criei desde pequeno e matar e comer e apreciar.
Aquilo me assustava.
Ele me contava as histórias sofridas da infância. Paredes caiadas,  buscar a cal , lamparinas de banha, a não ser para recém nascidos, aí era uma bucha cheia de azeite. A mãe benzedeira que curava criança com vento virado com uma xícara virgem mais água de 3 rosas para a criança beber e o livrava de cobreiros com um talo da mamona passado no fogo 3 vezes e dizendo:-o que é que corto?
- cobreiro bravo!

 As surras que levava com vara de marmelo ajoelhado no milho; os pães cozidos na sexta feira, as saias longas das mulheres, e a única coisa que o pai comprava, que não era tirado da terra, era o sal e  conga pra ir pra escola.  Anotei tudo. Anotei suas noites em castigo sem comida, com fome na cama de cordas, sob a aspereza do cobertor tecido e tingido em casa. Anotei a vingança ao abrir a porteira de um vizinho e deixar os bois irem pela estrada e a consequente surra que levou. Suas roupas feitas de saco, a escolha do café da manhã: ou pão com leite ou café com farinha. Não podia repetir, nem  comer os dois. Enquanto isso, o pai, nas horas de folga, esculpia ex-votos e tudo o quanto era figura em cera de abelha. Copiava tudo, fazia flor e qualquer bicho em miniatura. Um artista! Depois, chicote.
Esse jeito herdou do pai. Não havia serviço que não fosse capaz de fazer. Levantava paredes, alinhava pedras com perfeição, criava mosaicos.
Um dia pagou 200 reais por um galo só porque ele “cantava bonito”.
Nos seus 40 anos tinha visto muita coisa mudar, mas ele mesmo, nunca saíra daqui.
E outro dia,  leu o poema de Fernando Pessoa que está na capela, seus olhos se encheram de água e me pediu uma cópia.
E comprou um cachorro, adorava o cachorro. Mas  o cachorro comeu o galo . Pegou a espingarda e deu um tiro no meio da testa do seu companheiro de banho nas águas frias, pois só tomava banho de rio.
Aí quis ir embora. Chorou  muito. Disse ser uma pessoa suja, imprestável.  E foi.  Despareceu na capineira.
Um ano depois o soubemos preso. Tinha passado a roçadeira na irmã.
Após temporada em manicômio, pagando cesta básica para alguma instituição foi solto.
Um ano depois soubemos de sua morte. Atropelado pois pedalava bem  no meio da estrada. 

Acidente ou escolha? 

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Fotografar


Há 8 nos que moro nas montanhas. A  princípio descobri-me daltônica nos tons de verde, eram tantos! E eu não os via assim como não via pássaros, tampouco os ouvia. E os erres interiorioranos me apontavam as folhas e diziam seus nomes. Também não os compreendia. Aos poucos,como quem vê um estereograma pela primeira vez, as formas , as folhas, os nomes, foram surgindo perante meus olhos e ouvidos estarrecidos. Estava feita a ligação.
Diariamente caminho nessas terras altas. Se embaixo, minha casa azul-“ porque é bom viver no azul, amor”- surge entre as folhagens lembrando-me um canto das bandeirantes  “ no alto da montanha há um lindo chalé” . Se estou no alto, ela aparece aconchegada pelas montanhas que a abraçam com um carinho comovente.
Há 8 anos que passo pelas mesmas trilhas e não há um dia sequer que uma novidade não surja!É a folha que caiu, é a flor que nasceu, é buraco de tatu, é o condomínio dos cupins que recebeu buraco de cobra cascavel. E as nuvens entram pela janela da casa azul para namorarem o vapor do cafezinho  recém passado no pano.
Então, fotografo. Talvez para aprisionar um trecho de beleza e aprender com ela a querer mais. Dificilmente os registros serão revistos mais que dez vezes . São tantos!  Olha! Um tucano voando entre as grades de uma gaiola de nuvem! Clico aflita para engaiolar esse momento.  Mas aí, um beija-flor passa raspando pelos meus ouvidos, ah! são dois! E o coração acelera, a respiração em suspenso para eles não fugirem, dedos nervosos tiram a tampa da objetiva.. e, voyeur,  testemunho uma cena íntima, tão rápida que me deixa na dúvida se realmente existiu, mas meu coração sabe do privilégio de estar presente no milagre da criação.
Fotografar torna-se um pouco mais difícil com os olhos embaçados da emoção, enxugo com a ponta da camiseta 5 números acima do meu e continuo nessa caça ao tesouro que nunca me frustra pois moro num caleidoscópio de maravilhas, por todo lado é beleza em movimento.
Tenho preferências: a silhueta, o diminuto e o através.  São eles que me chamam atenção e click! Mais uma foto.  Na amplidão da paisagem se minha pequenez se evidencia, torno-me cúmplice de tudo, seja pedra, aranha , flor, folha rasgada ou passarinho. Entendemo-nos bem, então. Estamos em iguais condições como a formiguinha e a neve, sempre um maior que o outro e assim tudo é igual.

E eles, por sua vez, parecem os biscoitos da Alice com o convite escrito : “fotografe-me”! Obedeço.  Às vezes , minha vista cansada sente que colheu um minuto muito especial de cor e forma. E às vezes ela está certa. Outras, ampliado pela tela do computador,  ó decepção! O passarinho voou! A borboleta fechou as asas! O vento levou, a vista falhou. Mas não zango.Amanhã tem mais.  

sexta-feira, 21 de junho de 2013

O vendedor de lâmpadas e o vandalismo

Minha sensação ao ver o estudante Pierre Ramon à porta da prefeitura de São Paulo, ali, sozinho enfrentando os políciais, aparentemente querendo fazer ocupação do local foi pensar: poxa, quero esse cara do  meu lado em qualquer conflito, corajoso...

Mas ele tinha depredado,  ele mesmo reconheceu que tinha errado, foi preso, solto etc. E aí fico sabendo que ele é um estudante de arquitetura. E pensei: cara, você está na profissão errada! Como quebrar um predio ?  Mas me lembrei do Palácio Monroe, demolido com aval de arquitetos como Lucio Costa para dar lugar a uma estação de  metrô.
Vivemos no mundo do vendedor do Aladim, "troque sua lâmpada velha por uma lãmpada nova" . E o que estamos vivendo é resultado disso. E, depois de trocara a lâmpada, percebemos que a felicidade que vinha prometida no brilho da troca, se apaga.   
O Brasil parou com as passeatas. Um movimento que começou com um legítimo desejo de passe livre, foi assumido pela classe média com outras tantas frustrações e insatisfações e agora, ao que parece, pelo crime que saem quebrando tudo. Movimento político organizado não vandaliza nada nem burgueses que tiveram 3 refeições por dia e foram à Disney nas férias.  A insatisfação é grande. Quando é que vamos perceber que trocar por lâmpadas novas só nos faz perder o gênio?

domingo, 14 de abril de 2013

Maior ou menor?

Recentemente o assassino de um rapaz completou 18 anos dias depois do crime. Como ,pela lei, ele  cumprirá 3 anos de reclusão em instituição para menor e , depois disso, sua ficha será limpa, algumas pessoas pelas redes sociais tem se manifestado a favor da diminuição da maioridade legal para tais crimes.

E isso me fez pensar.  De novo.

As câmeras de SEGURANÇA do prédio da vítima registraram o crime. Coitado do rapaz! coitados dos pais que perderam esse filho por conta de um celular, celular, aliás, que o rapaz deu,entregou ao bandido, mesmo assim, levou um tiro.  E o que me causou espanto foi o fato que a imagem registrada dá a impressão de quem está entrando para o presídio é a vítima! O prédio com câmera de segurança , cercado de grades, como uma prisão.
Está tudo errado!
E o erro não está na idade do criminoso que cumprirá 3 anos de reclusão em estabelecimento para menor.  É claro que o fato do menor não ser imputado o torna alvo de maiores que transformam menores carentes em uma legião de bandidos que nos deixam de mãos e corações atados. E qual a escolha da criança? Mora num antro onde a única chance de alegria é dada pelo tráfico, seja em forma de chiclete,cola ou status, e ai dele caso se recuse a participar do chamado!

E o que nós cidadãos estamos fazendo? Sim, porque os governantes ligaram o dane-se há muito tempo! Foram criando ilhas de segurança para alguns abastados , meteram-se em seus helicópteros e , como diria o personagem Justus Veríssimo "que o pobre se exploda". É filho do ricaço que, ao sair de uma noitada,  atropela e mata um senhor que está fazendo sua ginástica matinal e fica por isso mesmo. É o filho do outro  ricaço que mata um ciclista e o justiça desconsidera o laudo e, sim, ambos são maiores. Ah! mas o menor da periferia.. para ele não tem perdão. Ele não usou um carro, é verdade, usou uma arma, coisa feita pra matar, o carro não foi feito pra matar. Culposo e doloso são coisas diferentes. Mas e a justiça é a mesma?

Ok, reclamei.  E o que fazer?
Precisamos cuidar de nossas crianças! precisamos cuidar de nossa sociedade, de nosso povo!
Para mim que saí da cidade grande é óbvio que a nossa solução urbana é caótica. É óbvio que a periferia vai continuar à margem de qualquer ação governamental, salvo algumas UPPs nas comunidades mais próximas das zonas ricas da cidade.  Precisamos de ação.

Então, visto que:

O Governo não se encabula na hora de derrubar prédios para seus intentos, sejam estádios ou viadutos.
As cidades estão inchadas.
A vida na periferia é sub humana!
Os ricos ficam impunes enquanto os pobres são punidos diariamente.
O Brasil é enorme.

Então, o Governo deveria chamar um bando de empresários para construírem grandes coisas em regiões que precisam de Grandes Coisas. Que grandes coisas? Qualquer uma. Fábrica, parque de diversão, estúdios de filmagem, qualquer coisa! os ricos sabem o que fazer. São ávidos e criativos.  O governo dá o terreno e os ricos inventam. Mas não de qualquer jeito!   a mão de obra virá da periferia das cidades. Preparação de mão de obra!
As prefeituras  enquanto isso transformam as comunidades, assim como fizeram as UPPs mas abrindo ruas, construindo praças, escolas, estádios, campos de futebol, afastando as casas umas das outras, avaliando a construção, da mesma forma que tiraram as pessoas que moravam nos lugares dos viadutos só que , em vez de desvalorizar as propriedades com carros passando pelas janelas, valorizando-as!  Criando quarteirões! Estabelecimentos comerciais. Postos de saúde. Estabelecimento comerciais. Ruas largas por onde possam passar caminhões de bombeiros quando necessário.

Os voluntários poderão vender seus imóveis , caso sejam proprietários para o governo  e este ainda providenciará emprego  e casa lá na Grande Coisa.  As crianças que vão estudar na Grande Coisa já vão estar em outro ambiente! Vão estar em ambiente de escolas com horário integral, lazer, trabalho, construção!  E a periferia vai virar uma comunidade verdadeira, com sua arte, sua vizinhança, esgoto, policiamento.
Bandido? se o crime não for de morte, vai fazer trabalho comunitário. Quero ver o ricaço infrator trabalhando na obra, sendo lixeiro, dando diariamente horas de seu dia na vida real. E pagando, claro, porque é rico e pode pagar.

Se for de morte, cadeia segundo a lei. E os menores? Devem ser tratados diferenciadamente conforme a idade por conta da periculosidade e compleição física. O menino de sete anos tem que receber tratamento diferente do garoto de 15, é tão óbvio. E vamos , principalmente, discutir isso! ampla discussão social! que tenhamos várias ideias mas que as tenhamos. Não fiquemos trancados nas nossas grades reclamando do go verno e exigindo mais leis. Deixando só que os bons pastores enfrentem o crime organizado.  Cadeias humanizadas, sem superlotação; infrações pagas com trabalhos comunitários verdadeiros; construção de Grandes Coisas Brasil afora; reurbanização da periferia com incentivos para mudança. Morar assim é desumano! Não foi só o bandido menor que matou o jovem: fomos todos nós com nossa omissão.




quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Mundo louco

Ontem assisti ao telejornal da TV Cultura e a premiada âncora relatou o depoimento de uma mãe: " minha filha tinha de pegar aquele trem naquela hora para chegar ao trabalho pois está ainda em fase de avaliação, o trem estava cheio demais, empurrei a minha filha para ela caber no vagão, fiz toda força para que ela pegasse aquele trem e a porta fechou e comecei a chorar. O que poderia acontecer com minha menina naquele vagão lotado??"

Fiquei doída.
A mãe amantíssima e carinhosa ajudou a filha para que a filha não perdesse o emprego. Emprego é difícil, todos precisamos de viver nessa sociedade injusta e cruel. Então, ela tenta ajudar.. e aí se dá conta do que fez, do risco que a filha está correndo , risco de ser apalpada, roubada, machucada, ferida, passar mal, pisoteada..

Sobreviver..

Vivemos num planeta tão maravilhoso e lindo que é lindo até do espaço. São praias, montanhas, lagos, pássaros, ilhas! Mas a maior parte da população está confinada nas cidades. Um dia desses, o prefeito de Macaé arrancou as árvores dizendo que "ninguém usava as árvores". Anh?
Então, arranca-se as árvores para construção de mais casas e ruas , afastam-se os rios e mares, as chuvas chegam, alagam tudo, tudo é cimentado, o calor é forte, há engarrafamento, poluição estresse, mesmo assim, ninguém larga porque é lá que: " melhores escolas, emprego, possibilidades de namoros, cinemas, shows, diversão"

Hoje é inadmissível que alguém que não goste do estilo de vida urbano viva na cidade. A tecnologia favorece a possibilidade do trabalho à distancia. E ainda que seja urbano, a maior parte dos trabalhos podem ser realizados em casa, o que diminuiria muito o ir e vir nas vias públicas.

E não devemos mais esperar pelos dirigentes, que nós sejamos os dirigentes de nós mesmos! Que façamos das nossas pequenas e simpáticas cidades a diferença, sem nos espelharmos nos modelos das capitais. Dá para viver bem se nos unirmos, juro.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Censura ou respeito?


“Viva a liberdade!
Abaixo a censura!”
Em geral saímos bradando essas palavras de ordem, protegendo nossos direitos individuais e.. pera lá, e o coletivo? Como combinar tais palavras com “ a sua liberdade chega até o direito do outro”?
Pois é. Um juiz em Macaé deu ordem de recolhimento de todos os exemplares do livro “50 tons de cinza”. Quando eu soube, pensei na hora: Eita! Revival de “Os 7 minutos” ! *
Mas, lendo mais entendi: é um livro que descreve cenas de sexo explícito. Há uma lei que diz que toda publicação adulta, com tais cenas, deve ser vendida em embalagens escuras etc. Então ele mandou recolher os que não estavam lacrados.
E aí , é hora de pensar.
Concordamos que menores de alguma idade ( para alguns 18, pra outros 14) devam ser protegidos de serem atingidos por imagens e informações sobre sexo  sem terem escolhido?  O juiz diz que esse livro exposto numa banca pode levar um jovem, um púbere, a ler na livraria algo que não é recomendado para sua idade.
Acho que devemos pensar a respeito e falar sobre isso.
Há editoras, inclusive, que para fazer propaganda de seus livros, expõe imagens , ilustrações, de livros não recomendado para menores em seus sites.
É certo? É bom? É isso o que queremos? É toda e qualquer liberdade?
Hoje, seis da tarde, ligo a TV paga. Estou vendo uma comédia antiga com Mel Gibson. A classificação é “programa para jovens e adultos”. Pois bem, aí, no intervalo, surge a propaganda do programa de sexo da mesma emissora, o programa para adultos que contém dispositivo de auto censura.  E também uma  propaganda de um filme de Angelina Jolie exatamente o trecho em que faz sexo , digamos, ardente, com o protagonista. Seis da tarde...
Mudo o canal e vejo a cena de Pretty Baby, um filme antigo com Brooke Shields aos 12 anos . ( o tema é o leilão de sua virgindade) onde a menina é apalpada e Susan Sarandon passa saliva no bico dos seios. Seis da Tarde..
E aí você vai ver o campeonato brasileiro! Vai torcer pelo seu time. No intervalo do jogo a propaganda do programa PAGO full fight com um cara socando a cara do outro e esmagando a cara do outro no chão com sangue espirrando pra todo lado. Seis da tarde.. e você na sala com o seu filho de 6 anos vendo isso.. o pesadelo virá, certamente.
E continuo a zapear.. soco, tiro, sangue, bunda, ah, e Alvin e os esquilos 3.
Caramba, a gente lutou tanto por fim da censura, por liberdade pra isso? Ou Alvim e os esquilos ou  Susan Sarandon nua?    
Crise de criatividade? Regressão? Arte não é, nem vem que não tem. É grana, é venda, é porque é fácil. 
Aí , com muito discernimento, cria-se uma legislação de proteção  à produção nacional. Mas a gente não produz tanto assim, e começamos  a pegar e pagar direitos de programas estrangeiros e nós não nascemos para fazer reality show, pelo menos ainda não. Não se parece nem um pouco com reality.  E tudo isso é pago. E  mesmo quando não o é , é uma concessão. Eu não posso ter uma emissora de TV mesmo que tivesse grana pra tal, nem de radio, nada. Então porque quem pode, quem está usando o MEU espaço, pois é uma concessão, pode burlar a lei? O pai pode censurar a programação para o filho mas não pode censurar os comerciais.
E no humor? Pode tudo? E por ser “brincadeira” estamos desculpados de sermos politicamente incorretos e assim colaborarmos para fixação de preconceitos?
Estou descrevendo o que acontece.
Acho que é um assunto que deva ser debatido. Sempre. Mesmo que nunca cheguemos a um consenso. Mas sempre avancemos para uma sociedade que respeite o próximo.