quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Ode às minhas mãos


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Desde pequena elas  me encantavam. Achava que tinha lindas mãos. Fechava, abria, virava, revirava... fascinantes!
 E como as mãos, em geral, fazem  coisas! Podem  pegar alfinetes, manusear uma pinça , trabalhar com um martelo, sinalizar, aplaudir , acariciar.
Mãos, verdadeiramente fascinantes.  Se as minhas pequenas mãos estivessem nas mãos da minha cega avó, ela as sentia com as suas mãos gordinhas e macias e dizia:  dedos de pianista! Mas minha mãe não me deixava  aprender piano. Dizia que ocupara suas mãos nas teclas por dez anos e não sabia onde era o dó. Que para aprender era necessário se ter piano. Mas nossas enormes paredes não tinham espaço para piano. Eram cobertas por telas, quadros, pratos e palavras magníficas como sancas, arandelas, marchetaria, cristaleiras, eletrola, tapeçaria, veludo, vitrais. Assim, meu pai me deu a máquina de escrever. Era menor.
Mas o padrinho tentou suprir a falta do piano com uma cítara e eu ocupei as mãos com novas palavras :partitura, palheta, cordas. E ocupei os ouvidos alheios num misto de insuspeita vingança e ilusão de artista.
Tão fascinantes me eram as mãos que meu primeiro texto publicado , escrito aos 12 anos, tinha como título “As Mãos”.  Inspirada pelas mãos da minha irmã, ou melhor, da “mamãe pequena” como a chamava. Ela  me presenteara, então,  com as palavras “datilografia, taquigrafia e estenografia.” Como a personagem do meu texto, as minhas mãos, após o curso TED,  seguraram mamadeiras e brincaram com.. ah! como são maravilhosas as mãos dos recém nascidos! E hoje, próxima aos 60 anos, olho minhas mãos com carinho. 
Estão diferentes. Mais volumosas, com  prenúncios artríticos, ressecadas, sardas senis, unhas estriadas e quebradiças. Sem esmaltes, ou verniz como diria minha mãe. Mas ainda assim, fascinantes! Agora, próxima aos 60, a morte não é mais o primo distante do qual se sabe a existência mas se duvida um pouco. É uma vizinha, alguém do mesmo bairro que me acena da janela. Ela é sábia. Foi se apresentando com flores e bilhetes. A ruga dos filhos que não nasceram próximas às sobrancelhas; as duas ruguinhas em forma de lua na lateral da boca com nomes de rei: Pedro e Carlos, e tantas outras mapeando a história . O tempo é sábio e amigo: nos dá as rugas e, também, solidário, enfraquece a vista para que não as vejamos.  Salpica neve nos cabelos e nuvens na memória para que dele não nos esqueçamos.  E ele não se esquece das mãos.   Se nas palmas as linhas da vida são longas e firmes, nas costas , como um vento na areia do deserto elas se comprimem e exprimem.
Pensei nisso tudo enquanto estendia a toalha no varal. Adoro executar algumas tarefas domésticas, assim como detesto outras. Se a vassoura me irrita, compenso com os varais. Ah! que luz! Que cheiro bom!  Que beleza os panos bordados de lembranças e palavras. Como seriam as mãos da minha avó cega antes de perder a vista tocando seu bandolim ou piano e bordando essa toalha?
Então, minhas mãos agora mais grossas estendem a  linda toalha com felicidade, assim como teclam ou acariciam os cães. Unhas irregulares de pães amassados, tintas pelas paredes, e agora, ó! Irão costurar! Antecipam a novidade tamborilando, estalando dedos, tocando castanholas, saboreando as novas palavras “chulear, casear, alinhavar, três pontinhos, ponto de cruz,ponto cego”.